Golpe baixo, mas grande filme

Na 30ª  Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o único filme brasileiro que consegui ver foi O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger (Drama, 2006).

A repercussão do filme foi algo de assustadora. Todo mundo comentava, indicava, dizia que era um filme sensacional, “você precisa ir ver”, coisa e tal. Mesmo quem não era muito interessado por cinema havia se rendido aos encantos do longa. É um ótimo filme, sem dúvida. Inegavelmente merece todos os elogios que tem recebido: uma história sensível, muito bem produzida e filmada, com grandes atores. Menção honrosa a Michel Joelsas, que interpreta o personagem principal, Mauro, e a Daniela Piepszyk, que faz a Hanna, minha personagem preferida na fita.

Terminada a rasgação de seda, sejamos honestos. O filme é muito bom, mas convenhamos: o diretor (e produtor e roteirista) Cao Hamburger, jogou sujo. Ele usou de artifícios que simplesmente não valem para poder chamar a atenção de todos para seu filme. Certos assuntos têm o poder de seduzir as massas, pois se ancoram no inconsciente coletivo. O primeiro deles é a infância, recordações dos tempos idos. Quando se fala em infância, todo mundo lembra com saudade do que viveu, das amizades, dos amores platônicos, das aventuras. Mesmo aquele que, como eu, não viveu a época retratada no filme, teve também uma infância. E isso, por si só, já o faz identificar-se com a narrativa e suspirar “ai, ai, como eram bons aqueles tempos...”

E a mente maligna de Cao Hamburger, buscando arrastar mais e mais gente para o cinema, se valeu de outro assunto irresistivelmente arrebatador: a conquista do tricampeonato pela mágica seleção de futebol de 1970. Não há outra época em que o futebol foi mais bonito e a torcida brasileira, mais encantada. Eu, que nasci em 78, fico chateado de não ter presenciado aqueles jogos.

A ditadura e a repressão foram só mais uma nuance, uma outra lembrança incrivelmente forte para quem viveu, mas não tão significativa para quem não esteve lá, como são a infância e o futebol. Resumindo tudo, enfim: explorar o tema da infância, durante a Copa de 70 é um golpe baixíssimo para seduzir as platéias. Não, isso não é uma reclamação. Eu me pergunto: como não pensei nisso antes? Palmas para Cao Hamburger, que não só pensou, como executou a idéia de forma primorosa, com grande apuro técnico. Um filme que vale a pena assistir.

 

 

Os brasileiros na Mostra de São Paulo

Semanas atrás eu passei uma noite inteira olhando atentamente toda a programação da 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Primeiro, os filmes e as sinopses mereceram um pente fino. Separado o joio do trigo, me espantei com a quantidade recorde de filmes brasileiros que eu tinha pré-selecionado: nada menos do que cinco. Mais algum tempo cruzando salas, dias e horários, e eliminando as incompatibilidades de acordo com o critério Gorniak de probabilidades, terminei com somente dois filmes brasileiros que precisava ver mesmo, de qualquer forma: O Cheiro do Ralo e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Incrível como o cinema nacional vem sendo cada vez mais procurado e os ingressos para as sessões, cada vez mais disputados. Eu tentei por duas vezes ver cada um dos filmes que tinha me proposto e nada: as bilheterias só vendiam ingressos para o dia e quinze, vinte minutos depois de abertas, as sessões para os filmes brasileiros já tinham se esgotados. Já estava resignado em ter de esperar os filmes serem lançados no circuito comercial quando um golpe de sorte me permitiu assistir O Ano que Meus Pais Saíram de Férias. E é esse filme que eu comento acima (para saber a história desse golpe de sorte, e dos outros filmes vistos, visite o Grande Gorniak).

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