:. Tomada 4 - Cena 1 .: Um auto-retrato cinemátografico
.: Ficha Técnica
Título Original: a definir.
Gênero: a definir
Ano de Lançamento (Brasil): 1980

.: Sinopse
Não é filme, mas poderia ser, não é real, mas poderia ser, é pessoal e intransferível.
. : : .

Dia desses fui ao cinema. Sozinho. Não por opção, mas por imposição minha. Precisava ficar sozinho ou, ao menos, estar sozinho. Contrariando o top ten dos lugares românticos a se levar a namorada, sempre achei o cinema um local de solidão, se confina entre os dois braços largos do assento e assiste calado ao filme da sessão, raciocina, ri ou chora ou dorme, sente, mas sem uma palavra, não há interação, mesmo no altruismo do saco de pipocas se compartilha em silêncio.

Cheia de contrapontos. Feita para ser grande, com tela vasta e as muitas cadeiras, a sala mostra-se pequena. A música ambiente substituindo a imagem comprada, entre o silêncio mundano e as luzes laterais a meio-tom, no que também não é luz nem breu. Cheio de contrapontos o local público era aconchegante.

Acomodei-me excessivamente confortável na poltrona que escolhi pacientemente e com satisfação segui a recomendação dos bons costumes e desliguei o celular. Demorei um tanto para acostumar com esse nível de tranquilidade e quietude. Minutos depois de pensamentos vagos: conta a pagar, emprego, amigos-familia-namorada, pensamentos que iam e vinham enquanto os olhos percorriam o teto, o piso, as paredes e as demais poltronas do lugar, que eu deparei com uma tela branca a minha frente, projetando o nada, apenas me observando, me assistindo ali sentado.

Dessa imagem surgiu no vazio a idéia do desepero que se dá quando encara-se o papel em branco, a tela de pintura e mesmo da tela de cinema (metafóriacamente falando) brancas. De como se parte de um nada para uma artte pura e pública. Do branco para todas as cores e formas que seu pensamento, informação, sentimento e tudo o mais pode mostrar. Com a retina imóvel, focando o imenso pano branco, já não me iluminavam as luzes do cinema e começara assim, sem mais nem menos, sem recomendações ou trailers um filme que eu já havia visto, mas nunca havia parado para prestar muita atenção.

Ali na tela, passaram lembranças infantis, juvenis: aquele natal com o presente que queria, o ano novo na praia, a primeira bicicleta e o primeiro tombo, o irmão que chegava, o tio que se despedia, aquela menina bonita demais para namorar, tudo filmado em super8, com trilha sonora uma bossa nova saudosa e animada. Mais colorida, mais viva na tela a juventude passava em flashes mais demorados: beijo, paixão, emprego, salário, faculdade, tudo em primeira mão, tudo em sua primeira vez, aquela sensação incomoda de não ser mais criança, mas não saber ser adulto, o frio na barriga que dava toda vez que precisava mostrar que era expertise em alguma coisa que nunca tinha vistou ou feito, além de mais recursos cinemátográficos e cenas de continuação, era mais de uma música, tocava Pink Floyd e Chico Buarque. O ritmo dos dias diminuiam e ficavam menos esparsos os periodos entre uma cena e outra: acabava a faculdade, crescera a barba, virara professor, relação estável, primeiro carro, minha profissão, minha personalidade, coisas que se definiam sem que eu percebesse, o rolo era digital e a música um blues de fim de noite em New Orleans. Essas coisas pequenas, que juntas tramam a minha própria história, coisas assim, desfizeram o nó na minha garganta e trouxe o aroma desses momentos, suas trilhas sonoras e suas sensações.

Tudo acabou como começou: luz acesa, tela branca. Não havia créditos – nem o que ser creditado. Ainda incrédulo na pelicula que acabara de ver pisquei mais de uma vez, esfreguei os olhos e sorri. Na minha critica cinematografica achei a historia bonita, verdade que o enredo estava ainda um pouco fraco, faltou alguma ação e era carregado demais em emoção, quase piegas mesmo e no fim das contas o enredo terminou como uma tragicomédia romântica, antes assim que um filme de terror.

Tirei os olhos molhados da tela branca e olhei para os lados e uma vez para trás, havia um casal de namorados no canto superior aproveitando o aconchego da ocasião, á esquerda um outro casal já nem tão apaixonados nem tão apaixonantes compartilhavam a mesma pipoca com conversas do cotidiano.

Mais uma vez as luzes apagaram, desta vez vieram as recomendações, os trailers e um filme novo, era comédia.
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